sábado, 12 de junho de 2010

VOX DEI parte IV: A Eficácia da Pregação


Embora tendo elevada concepção da pregação, a fé reformada não atribui à palavra pregada eficácia automática, mecânica ou mágica,69 e nem a associa primordialmente às habilidades e capacidades pessoais do pregador ou dos ouvintes. A eficácia da pregação, na teologia reformada, depende fundamentalmente da operação do Espírito Santo e da responsabilidade humana do pregador e dos ouvintes.
A. A Eficácia da Pregação e as Habilidades Pessoais do Pregador
Com base em 1 Coríntios 2.1-4 e 2 Coríntios 3.5, a fé reformada sustenta que a eficácia da pregação não depende, em primeiro lugar, da eloqüência, linguagem elaborada, gesticulação premeditada ou da capacidade intelectual do pregador. Um pregador pode ser eloqüente, pode gesticular bem, evidenciar grande capacidade intelectual e, no entanto, sua pregação pode ser completamente ineficaz. De fato, estas coisas podem tornar-se até em empecilho para a genuína promoção do reino de Deus. O ideal reformado-puritano da pregação inclui linguagem simples e gesticulação natural.
B. A Obra do Espírito Santo para a Eficácia da Pregação
No entendimento reformado, a eficácia da pregação depende principalmente da obra do Espírito,70 que ocorre em três instâncias: na preparação do sermão, na entrega da mensagem e na recepção da mensagem por oca¬sião da pregação.
Com relação ao pregador, a eficácia da pregação depende da capacitação do Espírito para a tarefa (2 Co 3.5-6). É o Espírito Santo quem confere poder à pregação (1 Co 2.4-5 e 1 Ts 1.5). Calvino escreveu que “nenhum mortal está por si mesmo qualificado para a pregação do evangelho, a não ser que Deus o revista com o seu Espírito.”71 Para ele, como observou seu biógrafo Thomas Smith, “as qualificações que habilitam qualquer homem para este elevado ofício [da pregação] só podem ser conferidas por Deus, através de Cristo, e pela operação eficaz do Espírito Santo.”72
A eficácia da pregação depende da ação iluminadora do Espírito Santo na preparação do sermão e da unção do Espírito na entrega da mensagem. Na preparação, a escolha do texto ou do livro a ser exposto e a determinação da sua extensão; a compreensão do seu propósito, sentido, argumentação, significado e aplicação; e a elaboração da mensagem (redigida, em forma de esboço, ou apenas de idéias gerais); tudo depende especialmente da operação interna do Espírito Santo na mente e no coração do pregador. Se o Espírito Santo não assistir o pregador no seu labor exegético, o resultado do seu trabalho será insuficiente, por maior que seja o seu conhecimento e por mais diligente que seja no seu trabalho. Na entrega da mensagem, a eficácia varia na proporção da dependência do pregador da assistência do Espírito, e não da confiança no seu preparo ou habilidades naturais. Havendo se empenhado para compreender o texto e preparar a mensagem e suplicado pela iluminação do Espírito, no momento da pregação o pregador precisa confiar-se completamente à assistência do Espírito Santo, dando lugar a que ele intervenha na entrega da mensagem.
Com relação ao ouvinte, a eficácia da pregação depende, em última instância, da ação iluminadora interna do Espírito Santo na sua mente e coração. É ele quem abre o coração dos ouvintes para que compreendam a mensagem (At 16.14). É ele quem escreve a mensagem no coração dos ouvintes (2 Co 3.3). Somente ele faz resplandecer o evangelho no coração, “para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2 Co 4.6). A pregação em si mesma, por mais verdadeira que seja, e por mais ungido que seja o pregador, é inútil. Não porque falte poder a ela. Mas, por causa da cegueira espiritual do homem natural, a palavra pregada só se torna eficaz pela operação interna imprescindível do Espírito Santo, “o Mestre interior,” que a acompanha. 73 Em contraste com a posição arminiana, a fé reformada enfatiza que “é Deus somente, na pessoa do Espírito Santo, quem pode tornar e torna eficaz a pregação.74 A depravação do coração humano não permite dissociar a palavra pregada da operação do Espírito.75
É este o ensino de Calvino sobre o assunto, e aqueles que o investigam raramente deixam de observar o fato.76 Para ele, “assim como a pregação é o instrumento da fé, assim também o Espírito Santo torna a pregação eficaz.”77 Em seu comentário de Isaías, ele escreveu que “o Espírito está ligado à Palavra, porque, sem a eficácia do Espírito, a pregação do evangelho de nada adiantaria, mas permaneceria infrutífera.”78 E em seu comentário do livro de Atos, ele deixa claro que depende do poder secreto do Espírito Santo que a pregação dos ministros do evangelho seja eficaz.79 A vocação eficaz, explica Calvino, consiste de um duplo chamado: externo, pela pregação da Palavra, e interno, pela iluminação do Espírito, que enraíza a palavra pregada.80 Em seu comentário de Miquéias, por exemplo, o reformador observa que “o governo peculiar de Deus existe no âmbito da igreja, onde pela Palavra e Espírito, ele dobra os corações dos homens à obediência, de modo que eles o seguem voluntária e livremente, sendo ensinados interna e externamente — internamente pela influência do Espírito, externamente pela pregação da Palavra.”81 O fato de que o apóstolo Paulo chama a sua pregação em 2 Coríntios 3.8 de “ministério do Espírito,” mostra a Calvino quão relacionados estão a pregação da Palavra e o Espírito.82 Para ele, “o Espírito exerce o seu ofício pela pregação do evangelho.”83
A Confissão de Fé de Westminster afirma que é pelo ministério (da Palavra), tornado eficiente pela presença de Cristo e pelo seu Espírito, que os santos são congregados e aperfeiçoados nesta vida. 84 O Catecismo Maior de Westminster reconhece que é o Espírito Santo quem torna a pregação da Palavra o meio especialmente eficaz para a salvação: “O Espírito de Deus torna a leitura, e espe¬cialmente a pregação da Palavra, um meio eficaz para iluminar, convencer e humilhar os pecadores; para lhes tirar toda confiança em si mesmos e os atrair a Cristo; para os conformar à sua imagem e os sujeitar à sua vontade; para os fortalecer contra as tentações e corrupções; para os edificar na graça e estabelecer os seus corações em santidade e conforto mediante a fé para a salvação.”85
C. A Responsabilidade do Pregador e dos Ouvintes para a Eficácia da Pregação
Como vimos, a fé reformada condiciona a eficácia da pregação primordialmente à obra do Espírito no pregador e nos ouvintes. Isso, entretanto, não ocorre em detrimento da responsabi¬lidade humana de um e de outros. A eficácia da pregação depende também da fidelidade do pregador em não adulterar ou mercadejar a Palavra de Deus (2 Co 2.17 e 4.2) e do uso correto que fizer da Palavra, o qual, por sua vez, dependerá da sua fidelidade no preparo. Depende, ainda, da responsabilidade dos ouvintes em receberem com atenção, reverência, fé e obediência a palavra pregada (Rm 1.5; 15.26).
Os ministros da Palavra são descritos nas Escrituras como “presbíteros que se afadigam na Palavra e no ensino” (1 Tm 5.17), são exortados a manejarem bem a Palavra da verdade (2 Tm 2.15) e a não se tornarem negligentes na preparação para a tarefa (2 Tm 4.14). Da perseverança deles nestes deveres dependerá também a eficácia da pregação para a salvação dos ouvintes (v. 16).
Quanto aos ouvintes, são instados nas Escrituras a considerarem atentamente a Palavra e a não serem negligentes, mas operosos praticantes (Tg 1.25); a “acolherem com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar as vossas almas” (Tg 1.21b); a tornarem-se “praticantes da Palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22).
Reformadores e puritanos enfatizaram bastante a responsabilidade dos ouvintes para a eficácia da pregação. A teologia reformada da palavra pregada resultou em uma teologia reformada da palavra ouvida.86 Especialmente com relação à edificação dos crentes, esta responsabilidade inclui o devido preparo prévio para ouvir a pregação, a atitude correta ao ouvir a palavra pregada, e o uso apropriado posterior da mensagem ouvida. A preparação prévia requer oração, apetite e um espírito ensinável. Somente uma semana vivida pensando nas coisas do alto, onde Cristo vive, deixa o crente preparado para ouvir a pregação (Cl 3.1-2; 2 Co 4.18). A atitude ao ouvir exige reverência, atenção, humildade e fé (Hb 4.1-2), características daqueles que discernem a real natureza do culto e da pregação. O uso apropriado posterior inclui meditação, oração e prática da mensagem ouvida (Tg 1.21-25).87
Lutero escreveu que “incorre em grave pecado quem não ouve [a pregação do] evangelho e despreza semelhante tesouro...”88 Para Calvino, “a pregação é um ato corporativo da igreja toda.” A congregação participa da pregação tão ativamente quanto participa da ceia.89 Por isso, ele insiste em que os ouvintes venham preparados para receber a mensagem.90 Ele enfatizou que a pregação da Palavra precisa ser ouvida “com grande reverência”, “bastante atenção,” e “sobriedade para o nosso proveito.” Acima de tudo, disse ele, “precisamos orar continuamente para que o generoso e gracioso Senhor nos conceda seu Espírito, a fim de que por ele a semente da Palavra de Deus seja vivificada em nossos corações.”91 Calvino menciona também a necessidade de humildade para receber a palavra pregada, mas observa que é o próprio Espírito Santo quem torna uma pessoa desejosa de ser ensinada pela Palavra.92 William Perkins, um dos pais do puritanismo inglês, escreveu que
...a responsabilidade daqueles que ouvem a pregação da Palavra de Deus, é submeterem-se a ela... O dever de vocês é ouvir a Palavra de Deus, pacientemente, submeter-se a ela, ser ensinados e instruídos, e mesmo ser perscrutados e repreendidos, e ter os seus pecados descobertos e as corrupções arrancadas. 93
Whitefield pregou um sermão especificamente sobre o assunto, intitulado Instruções sobre Como Ouvir Sermões, baseado em Lucas 8.18, “Vede, pois, como ouvis.”94 Eis suas instruções: 1) venha ouvir, não por curiosidade, mas motivado por um sincero desejo de conhecer e praticar seus deveres; 2) “não apenas prepare seu coração de antemão para ouvir, mas também atente diligentemente para as coisas que forem faladas da Palavra de Deus”; 3) não tenha prevenção contra o ministro a que Deus constituiu bispo (supervisor) e embaixador sobre você;95 4) aplique tudo o que ouvir ao seu próprio coração; 5) ore, antes, durante e depois do sermão, a fim de que Deus conceda poder ao pregador e habilite você a praticar a mensagem.
O Breve Catecismo de Westminster, na resposta à pergunta de número 90, “Como se deve ler e ouvir a Palavra a fim de que ela se torne eficaz para salvação?” resume assim a responsabilidade do ouvinte na pregação: “Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação, devemos ouvi-la com diligência, preparação e oração, recebê-la com fé e amor, guardá-la em nossos corações e praticá-la em nossas vidas.” Já o Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta de número 160, afirma:
Exige-se dos que ouvem a palavra pregada que atendam a ela com diligência, preparação e oração; que comparem com as Escrituras aquilo que ouvem; que recebam a verdade com fé, amor, mansidão e prontidão de espírito, como a palavra de Deus; que meditem nela e conversem a seu respeito uns com os outros; que a escondam nos seus corações e produzam os devidos frutos em suas vidas.
D. Conclusão
Estas considerações sobre a obra do Espírito e a responsabilidade humana para a eficácia da pregação não devem levar o leitor a pensar que a pregação da Palavra só se torna eficaz quando obtém resposta positiva dos ouvintes. A genuína pregação do evangelho nunca é vã. Os legítimos pregadores do evangelho são sempre conduzidos por Deus em triunfo, pois por meio deles se manifesta em todo lugar a fragrância do conhecimento de Deus. Eles são, diante de Deus, o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos, como nos que se perdem. “Para com este cheiro de morte para morte; para com aquele aroma de vida para vida” (2 Co 2.14-16).96 Mesmo quando rejeitada, a eficácia da palavra pregada se manifesta tornando indesculpáveis os réprobos, os quais, afirma Calvino, são cegados e estupeficados ainda mais pela pregação da Palavra.97 Ou a pregação nos aproxima de Deus, ou nos coloca mais perto do inferno.98

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